Qual era o espinho na carne do apóstolo Paulo?

1/4/20265 min read

Podemos ter uma resposta definitiva sobre qual seria este espinho na carne?

A expressão "espinho na carne" (skolops\ tē\ sarki no grego original) aparece em 2 Coríntios 12:7-9. Paulo escreve que, para que ele não se engrandecesse com a grandeza das revelações que recebeu, foi-lhe dado esse "mensageiro de Satanás" para o esbofetear.

Você já clamou a Deus pra te socorrer por ter furado o dedo num espinho? Acredito que não! Então porque Paulo ora tão intensamente a Deus para que lhe livre deste espinho? A palavra traduzida por "espinho" também pode ser traduzido por "estaca" (o que dá mais sentido pra intensidade de dor), e o fato de usar a expressão "mensageiro de Satanás para me esbofetear" (esbofetear é dar um tapa na face de alguém com as costas das mãos - homens entenderão o constrangimento de receber um tapa destes), não significa que ele levava uma surra do maligno, mas sim, somadas as duas expressões denotam que o que é chamado de "espinho na carne" por Paulo, significa que este tipo de sofrimento lhe causava grande dor e constrangimento/humilhação.

Como ele nunca deu um diagnóstico claro, historiadores e teólogos ao longo dos séculos desenvolveram várias teorias baseadas em pistas deixadas em suas outras cartas. Aqui estão algumas delas:

1. Doença Física (A Teoria Mais Aceita)

A maioria dos historiadores prefere uma explicação médica, baseada em passagens onde Paulo menciona sua fraqueza física. As principais hipóteses são:

Problemas Oculares: Em Gálatas 4:15, Paulo diz que os fiéis "teriam arrancado os próprios olhos para dar a ele" e, no fim da carta, menciona que escreve com "letras grandes" (6.11). Isso sugere uma infecção crônica nos olhos (como o tracoma) ou uma visão muito debilitada, possivelmente sequela de sua experiência na estrada de Damasco. Somado a isso pelo fato de a carta aos Romanos ter sido escrita por Tercio e assinada por Paulo (Rm 16.22), indicando dificuldades na escrita.

Malária ou Febre Recorrente: Nas regiões pantanosas da Ásia Menor, por onde Paulo viajou, a malária era comum. Ela causa crises de febre alta, calafrios e dores de cabeça lancinantes, o que explicaria a sensação de "ser esbofeteado" por algo intermitente.

Epilepsia: Alguns historiadores sugerem que as visões de Paulo e suas quedas (como no caminho de Damasco) poderiam ser interpretadas como crises epilépticas, que na época eram vistas por alguns como um "mal sagrado" ou ataque espiritual.

Ainda que cada hipótese acima, não passe de apenas uma hipótese, acredito ser sim uma doença física, porém, não temos como ser taxativos em qual seria.

2. Perseguição e Oposição Humana

Alguns estudiosos focam no contexto bíblico do Antigo Testamento, onde a expressão "espinhos nos vossos olhos" ou "nos vossos flancos" era usada como metáfora para inimigos e opositores (como em Números 33:55).

Nesta visão, o "espinho" não seria uma doença, mas sim as constantes perseguições, prisões e os "falsos irmãos" que tentavam destruir o trabalho de Paulo em cada cidade que ele visitava.

Ao meu ver esta visão não se sustenta: pois Paulo ao escrever aos Filipenses destaca o quão importante foram as perseguições para o avanço do evangelho, o que lhe gerava regozijo (Fp 1.12-18).

3. Impedimento de Fala (Gagueira)

Em 2 Coríntios 10:10, Paulo cita seus críticos dizendo: "A sua presença pessoal é fraca, e a sua palavra, desprezível"

Isso levanta a hipótese de que Paulo poderia ter algum defeito na fala ou uma oratória pouco atraente para os padrões gregos, o que seria um "espinho" constante para alguém cujo trabalho dependia inteiramente da pregação.

Teoria bem fraca, pois o fato dos Coríntios dizer de sua fala fraca, expressava sim o desprezo destes para com o apostolado de Paulo, o que ele usou de grande empenho na sua segunda carta aos Coríntios pra defender

Vemos também a excelente oratória de Paulo em Atenas diante dos filósofos (At 17.15-34), pois enquanto argumenta todos o ouviam, e só pararam de lhe escutar quando falou acerca da ressureição.

4. Angústia Mental ou Depressão

Dado o nível de estresse, as surras, os naufrágios e a "preocupação com todas as igrejas" que ele menciona, alguns teólogos modernos sugerem que o espinho seria uma luta contra o desânimo profundo ou crises de ansiedade. No entanto, o termo grego skolops geralmente se refere a algo que causa dor física aguda.

Não vejo coerência, pois: No momento da conversão de Paulo, Jesus falou a Ananias que o acolhesse em sua casa sem temer, pois revelaria a Paulo o quanto ele sofreria pelo evangelho (At 9.1-18).

Somado a isso, já na sua última carta destinada a Timóteo, próximo de sua morte, Paulo conclui com uma das mais, se não for a mais bela expressão de fé:

"Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda. [...] ¹⁸ E o Senhor me livrará de toda a má obra, e guardar-me-á para o seu reino celestial; a quem seja glória para todo o sempre. Amém". 2Tm 4.7,8,18

E pra fechar de forma mais conclusiva, basta lermos os versos finais do texto que Paulo trata o seu espinho na carne: "E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo. Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte. (2 Co 12:9,10).

5. Crise de consciência

Alguns sugerem que Paulo por ter sido um ferrenho perseguidor da igreja (At 6-9), e por meio dele muitos terem sido presos ou mortos, isso lhe perturbava na consciência, causando grande aflição, uma verdadeira crise de consciência.

Não nego que Paulo poderia ter tristes lembranças desta época, porém, ele foi absorvido pelo perdão e graça de Deus (Cl 2.14; 1Tm 1.15), e que o que ele infligia sofrimento aos irmãos, agora ele podia padecer por Cristo (conforme já citado acima). Ele compreendeu o propósito de Deus pra sua vida/chamado, afirmando: "Mas, quando a Deus agradou revelar seu Filho em mim, para que eu o anunciasse entre os gentios..." Gl 1.15; Entendia que "Deus não tendo em conta os tempos da ignorância" At 17.30; 1Tm 1.13). "Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar Cristo" (Fp 3.8).

6. Homossexualismo?

Esta absurda ideia de que o espinho seria "tentação sexual" (como a teoria que recentemente foi publica em podcast), só se tornou popular muito mais tarde, especialmente com alguns autores progressistas defensores do movimento LGBTQIA+.

Para melhor compreensão e refutação desta teoria...

Por que Paulo não disse o que era?

Historiadores acreditam que o silêncio de Paulo foi intencional. Ao não especificar o seu sofrimento, a mensagem dele se tornou universal: qualquer pessoa que sofra de uma limitação (seja física, mental ou social) pode se identificar com a conclusão que ele recebeu:

"A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza." 2Co 12.9

Gloria a Deus!

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