Significado e Implicações da Necromância em 1 Samuel 28
1/9/20268 min read


Introdução
No contexto da teologia e da literatura bíblica, a necromancia é um tema polêmico. Uma das passagens mais notórias que aborda esse assunto se encontra em 1 Samuel 28, onde se descreve a "invocação do espírito de Samuel" pela feiticeira de En Dor. Este evento se destaca por suas implicações teológicas e morais, levantando questões sobre a legitimidade e a natureza dos rituais necromânticos. Estaria Deus validando uma pratica reprovada por ele antes?
O que aconteceu em 1 Samuel 28?
Na narrativa, o rei Saul, enfrentando uma crise militar contra os filisteus e sentindo-se abandonado por Deus, decide buscar respostas em um meio que era, segundo a lei mosaica, estritamente proibido: a necromancia. Saul busca a feiticeira de En Dor, uma necromante que tinha a suposta habilidade de chamar os mortos. Após um breve questionamento, a feiticeira invoca Samuel, o profeta falecido, que aparece e oferece conselhos a Saul.
Teria Deus permitido mesmo que Samuel viesse falar com Saul, indo contra a sua Palavra?
Vamos nos contextualizar primeiro sobre os personagens da referida passagem
Deus: Vejamos o que Deus em sua palavra diz sobre a pratica da necromancia:
Não vos voltareis para os necromantes, nem para os adivinhos; não os procureis para serdes contaminados por eles. Eu sou o Senhor, vosso Deus. (Lv 19.31)
Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; 11nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; 12pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por estas abominações o Senhor, teu Deus, os lança de diante de ti. (Dt 18.10-12)
Quando vos disserem: Consultai os necromantes e os adivinhos, que chilreiam e murmuram, acaso, não consultará o povo ao seu Deus? A favor dos vivos se consultarão os mortos? Is 8.19
Deus é Santo (Lv 11.44,45; 19.2; Is 6.3; 1Pe 1.16), e imutável em seu ser e caráter (Ml 3.6; Hb 6.17,18; Tg 1.17; Hb 13.8). Deus jamais iria contra a sua Palavra validando um ato tão abominável aos seus olhos.
Feiticeira/necromante: Ela com certeza praticava algum tipo de ocultismo, tanto que na referida passagem foi indicada para tal consulta. Havia anteriormente fugido e vivia escondida, temendo pela sua vida, pois o próprio rei Saul havia mandado anteriormente exterminar todos os adivinhos e encantadores do reino (1Sm 28.9). Não temos mais detalhes biográficos sobre sua vida.
Saul: Quando o povo de Israel rejeita o governo de Deus e lhe pede um rei como as demais nações, Deus lhes atende, escolhendo Saul para governar Israel (1Sm 8-10). Vivenciou o poder do Espírito Santo em sua vida (1Sm 10.6-13), vindo a ter grande conquista na batalha contra os amonitas (1Sm 12). Mas não demorou para começar a se distanciar do Senhor; ao surgir batalha conta os filisteus, ele temeroso, não esperou o profeta Samuel chegas para oferecer o sacrifício a Deus, fazendo-o por conta, gerando grande reprovação por parte do profeta (1Sm 13.13,14). Demonstrou insensatez privando seus soldados de pão e fazendo votos de tolo (1Sm 14). Mas o ponto mais crítico rumo a sua queda foi sua desobediência em destruir os amalequitas, os quais Deus queria que por meio de Israel fosse cumprida sua justiça quanto aos pecados desta nação (1Sm 15), fazendo com que Deus providenciasse outro rei em seu lugar. Passou a ser atormentado por espírito maligno (1Sm 16.14-23). Seu orgulho e inveja se evidenciou mais quando Davi venceu o gigante Golias, fazendo com que o povo aclamasse mais a Davi que a ele, levando-o a intentar matar a Davi, não só nesta ocasião, mas em futuras também (1Sm 18-20, 24, 26, 27). Em 1Sm 22.6-19 registra que Saul mandou matar os sacerdotes da linhagem de Aimeleque por este ter ajudado a Davi anteriormente (21.1-9). Chegando ao ponto de Deus não lhe falar mais por sonhos, Urim ou por profetas (1Sm 28.6).
Samuel: Profeta que nasceu de um milagre e foi desde infância escolhido por Deus pra ser o último Juiz de Israel (1Sm 1-3). Seu ministério se evidenciou por ser fiel ao Senhor e terem todas as suas palavras/profecias cumpridas totalmente (3.19). Morreu na velhice e manteve seu caráter integro perante Deus e o povo (1Sm 12; 25.1).
Analisando o texto em profundidade
O episódio da necromancia em 1 Samuel 28 oferece uma rica área de reflexão teológica. Primeiramente, ele expõe a vulnerabilidade de Saul como líder e sua desesperada busca por orientação. Ao mesmo tempo, revela as consequências de se afastar de Deus e buscar soluções em práticas abomináveis. O evento também levanta questões sobre a natureza da comunicação com os mortos. A aparição de Samuel levanta dúvidas sobre se de fato a necromancia é uma prática real, se é uma ilusão criada pela mente do solicitante ou atuação demoníaca. Segue alguma ponderações sobre o texto, onde creio serem evidências de não ter ocorrido de fato o aparecimento de Samuel.
1. Saul está totalmente sugestivo a aceitar qualquer coisa como sendo uma indicação de alívio ou direção em meio ao seu caos interno
Saul estava vivendo uma profunda falência espiritual (28:6), terrível crise psicológica (28:5), com esgotamento físico (28.20).
2. Silencio de Deus para com Saul
Como já citado acima, a reprovação de Deus para com Saul já estava tão grande que não lhe respondia mais (v. 6, 15). Isso se dá pelo fato da própria busca em si de Saul não ser sincera, com arrependimento (1Cr 10.13-14). Revelando a completa apostasia que já tomava conta do coração de Saul (vs. 7-11).
3. Quem a feiticeira viu?
Nos versos 11 a 13 quando Saul pede para que faça subir a Samuel, um espanto toma conta da feiticeira (observe que a transição é tão rapida que não tem nem indicativo de iniciar a sessão e já tem uma aparição, alegando se Samuel; neste mesmo momento reconhece que seu cliente era o rei Saul, e teme por sua vida. Saul garante não lhe fazer mal, e reforça o pedido sobre quem ela vê? Sua resposta é: "Vejo deuses que sobem da terra" (v. 13). Ao indagar sobre a figura do "espírito" que apareceu, a mulher responde ser um homem ancião envolto numa capa. Dai o texto diz: "Entendendo Saul que era Samuel..." (v. 14). Precisamos fazer algumas ponderações: Porque ela diz ser Samuel, depois diz ver deuses subindo da terra e por fim um ancião envolto em capa? Apareceu um ou vários espíritos? Saul não viu o profeta, mas deduziu pela fala da feiticeira de que era ele? Continue aqui comigo, e creio que conseguiremos respostas a estas perguntas.
4. Temos alguns problemas escatológicos aqui?
Dentro da revelação bíblica, podemos concluir que Samuel estava no "seio de Abraão" = paraíso (Lc 16.22,23; 2Co 12.4). Em Lucas 16.23 diz que o rico ao morrer, estando no hades, ergueu os olhos e viu "Lázaro no seio de Abraão". Se o rico estava num lugar baixo e Lázaro num lugar alto, o Samuel não deveria ter descido ao invés de subido da terra?
No verso 15 "Samuel" disse: "Porquê me inquietaste, fazendo-me subir"? Ora, em Ap 14.13 nos diz: "[...] Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas [...]". Veja e expressão "para que descansem ", teria Deus permitido uma feiticeira trazer inquietação ao profeta?
Os mortos não se comunicam com os vivos (Lc 16.19-31; Hb 9.27).
5. Validando as profecias de "Samuel"
Já comentamos acima que todas as profecias de Samuel, quando em vida, sem cumpriram e nada caiu por terra (1Sm 3.19). E a palavra de Deus nos avisa para analisarmos as mesmas pra julgarmos se a profecia procede de Deus ou não (Dt 18.20-22; 1Co 14.29).
a) "[...] amanhã tu e teus filhos estareis comigo" (v. 19). Se Samuel era um profeta do Senhor e Saul um homem rejeitado por Deus, como poderiam esta juntos após a morte? Saul não foi entregue nas mãos dos Filisteus, mas se matou (31.4,5), indo seu corpo parar nas mãos dos homens de Jabes Gileade (31.11-13). Não morreram todos os seus filhos como dito na profecia, pois três deles ficaram vivos Is-Bosete (2Sm 2.8-11), Armoni e Mefibosete (21.8). Apenas três morreram, Jonatas, Abinadade e Malquisua (31.6; 1Cr 10.2-6). Saul não morreu no dia seguinte a esse episódio (28:25; 29:11; 30:1,17; 31:1).
6. E as constantes menções diretas no texto sobre o nome de Samuel, não confirmam que era ele de fato?
Nada incomum um texto narrativo que incorpora vários personagens, usar o nome de Samuel apenas como indicativo do que seriam as palavras desta aparição. Como vimos, o textos deixa brechas sobre a identidade de Samuel e não afirma de fato ser ele falando, pois como Saul não o viu e nem ouviu, as palavras ditas, teriam saído da boca da feiticeira. Eu não duvido que tenha aparecido algum "Samuel", o que com certeza, não era o profeta Samuel verdadeiro.
7. Um exemplo claro de espírito de engano atuando
Como já citado acima, a reprovação de Deus para com Saul já estava evidente (v. 6, 15). Mas a parte mais triste da rejeição de Deus a alguém, é quando Ele deixa a pessoa seguir seu caminho, sem mais intervir pra mudar o coração. Em 2Ts 2.10-12 diz "E com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem. E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; Para que sejam julgados todos os que não creram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade". Veja que isso ocorreu na história de Israel quando Deus permitiu um espírito de mentira na boca dos profetas de Baal para que o rei Acabe recebesse a morte como o juízo de Deus (1Re 22; 2Cr 18), e mesmo tendo Deus usado seu profeta pra avisar que isso aconteceria, Acabe preferiu seguir seu caminho de rebelião. Lei com muita atenção Rm 1.18-32 onde o apóstolo Paulo relata que o juízo de Deus começa deixando o homem se conduzir no caminho desenfreado que escolheu. Como não tem mais sensibilidade pra receber o arrependimento, os entrega pra cometerem toda sorte de perversidades, o que culminará no juízo do Senhor sobre eles. que triste realidade, as pessoas preferirem acreditar na mentida ao invés da verdade!
Alguma lições que podemos aprender com este ocorrido
1. A Desobediência prolongada produz "silêncio" espiritual da parte de Deus.
2. Desespero não justifica desobediência, mas comprova a presença de incredulidade.
3. Há limites claros: Deus proíbe consulta aos mortos.
4. Nem toda "voz espiritual" é de Deus - existe engano.
5. Deus não é manipulável: "técnicas" não substitui arrependimento.
6. O pecado promete alívio, mas entrega peso e destruição.
7. Decisões espirituais hoje, moldam consequências amanhã.
Conclusão
O relato de 1 Samuel 28 permanece como um importante exemplo dentro da narrativa bíblica que reflete sobre a necromancia e suas consequências. Este evento não é meramente uma anedota sobre comunicação com os mortos, mas um apelo à reflexão sobre a nossa relação com o divino e a seriedade das escolhas que fazemos quando estamos em crise. Deste modo, a história de Saul e a feiticeira de En Dor não só ilustra as complexidades das práticas ocultas, mas também nos adverte sobre a distância que podemos criar entre nós e Deus quando nos afastamos de suas diretrizes divinas.
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